Pantanal: por que formar pastagens e a que custo?

Por José Aníbal Comastri Filho e Sandra Mara Araújo Crispim

Estas são perguntas que muitos pecuaristas, técnicos e a própria sociedade civil, representada por instituições governamentais e não governamentais, fazem e precisam ser tecnicamente explicadas e justificadas. Não é muito fácil abordar este assunto, pois se trata de um Bioma que consta na Constituição Federal de 1988 como Patrimônio Nacional.

É importante ressaltar que se trata de um Bioma protegido e reconhecido também pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade e Reserva da Biosfera, condição que induz a certos impedimentos de ordem operacionais. No entanto, é preciso focar nos aspectos econômicos da região que se encontra alicerçada na criação extensiva de bovinos de corte, principal atividade econômica caracterizada pelo uso intensivo dessa área, onde 95% de suas terras são propriedades particulares, distribuídas em 5.349 fazendas, sendo que 957 se localizam no Pantanal Norte e 4.392 no Pantanal de Mato Grosso do Sul.

A principal atividade econômica destas propriedades se encontra baseada na criação de bovinos de corte, principalmente da raça Nelore ou de animais anelorados, hoje com bom padrão racial. Nestas propriedades, as pastagens nativas, com destaque para aquelas localizadas nas partes úmidas no médio e baixo Pantanal, constituem a base de sustentação alimentar dos herbívoros silvestres e exóticos que vivem na região.

Essas áreas, ricas em gramíneas com palatabilidade e valores nutritivos elevados, foram no passado o esteio da produção comercial de bovinos e equinos, garantindo a estabilidade econômica dos sistemas de produção do Pantanal.

Essas pastagens que, em sua maioria, localizam-se principalmente nas cotas mais baixas do mesorrelevo, portanto, alagáveis, ocasionam, em muitas situações, redução na oferta de pasto, durante as cheias que ocorrem na estação chuvosa (dezembro a abril). Situação que, em função de sua intensidade e duração, compromete a estacionalidade destas pastagens provocando falta de pasto, que induz grandes perdas na produção pecuária do Pantanal.

Neste sentido, com o advento da globalização da economia que afetou de forma marcante o mercado agropecuário em todo o mundo, esse setor passou a buscar ajustes urgentes na sua forma de produzir e comercializar seus produtos.

Esta situação não foi diferente aqui no Pantanal, onde este processo afetou fortemente a sua pecuária, que, até a década de 1980, apresentava baixos índices zootécnicos e baixa rentabilidade, quando comparada com outros sistemas de produção pecuária de outras regiões.

Neste período, a maioria dos sistemas de produção do Pantanal era caracterizada pelo uso de poucas ou quase nenhuma tecnologia. Com a criação desta nova conjuntura de mercado, que passou a afetar também o Pantanal, foi necessário associar os adventos de uma maior produtividade com questões sociais, econômicas e ambientais, inaugurando assim uma nova fase para os sistemas de produção de bovinos de corte da Planície Pantaneira.

É importante ressaltar que a melhora desses índices zootécnicos teve grande participação da Embrapa Pantanal, que disponibilizou várias tecnologias para o setor e, dentre estas, a formação de até 50% de pastagens cultivadas para determinadas áreas, onde se concentram gramíneas grosseiras e pouco palatáveis.

Esta tecnologia teve grande importância no aumento da taxa de lotação das pastagens e, como consequência, aumento de produtividade e melhoria no índice de desfrute dos rebanhos da região. Mesmo assim, para sua maior eficiência, esta tecnologia deve ser conjugada com outras e cercada de todos os cuidados na sua utilização, primando para que os ganhos almejados sejam cercados de sustentabilidade.

Com relação ao custo de implantação, limpeza de pastagem e construção de cerca com arame liso no Pantanal arenoso, dividimos em diferentes tabelas para facilitar o entendimento das diferentes operações envolvidas.

Custo de implantação de pastagem em 1 hectare Valor estimado
Derrubada/arranquio (2 tratores de esteira tipo D6, com correntão ou cabo de aço). Autonomia de trabalho = 3 ha/hora x 10 horas de trabalho= 30 ha/dia. R$ 360,00/hora/cada trator
Enleiramento (1 trator esteira ou de pneu traçado com lâmina frontal) R$ 360,00/hora
Grade aradora com discos de 32” R$ 340,00/hora
Plantadeira/trator de pneu tipo 265, faz 20 ha/dia   R$ 70,00/ha
Grade niveladora fechada   R$ 70,00/ha
Sementes= 10 kg/ha = R$ 40,00/Kg R$ 400,00/ha
Total R$ 1.960,00

Custo de construção de 1 km de cerca nova com arame liso no Pantanal arenoso Valor estimado
Frete (materiais usados = 330 postes + 20 firmes + 4.000 metros de arame liso) R$ 4.600,00/viagem
Aceiro de 2,5/2,5 m R$ 1.400,00/km
Postes (330 x R$ 20,00) R$ 8.900,00
Principal (20 x R$ 50,00) R$ 1.400,00
Arame liso (4 x R$ 350,00) R$ 1.900,00
Mão-de-obra (4 x R$ 80,00 x 5) R$ 2.100,00
Total R$ 20.300,00

A estimativa do custo da limpeza de pastagem para um hectare equivale a aproximadamente 10 arrobas de vaca gorda (R$ 180,00/arroba) ou 10 arrobas de boi gordo (R$ 200,00/arroba), conforme pode ser verificado na tabela abaixo:

Custo de limpeza de pastagem em 1 hectare Valor estimado
2 tratores de esteira tipo D6 com correntão ou R$ 360,00/hora/cada trator
1 trator de esteira tipo D6 com lâmina frontal ou R$ 360,00/hora
1 trator traçado de pneu com link ou R$ 340,00/hora
1 trator traçado de pneu com lâmina frontal R$ 340,00/hora

As estimativas de implantação e limpeza de pastagem se referem a operações em um hectare de pastagem cultivada no Pantanal arenoso.Os valores foram calculados quando o dólar comercial, para efeito de correção, estava cotado a R$ 5,00.

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José Aníbal Comastri Filho (jose.comastri@embrapa.br), engenheiro-agrônomo, pesquisador da Embrapa Pantanal; Sandra Mara Araújo Crispim (smara29@hotmail.com), engenheira-agrônoma, pesquisadora aposentada da Embrapa Pantanal

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